(o portão)
Gritos felinos me tiravam a concentração. Com o tempo - e bota tempo nisso! - comecei a ouvir mastigadas diferentes na minha cozinha. Pois conheço cada barulho do meu animal de estimação: a velocidade com que mastiga, a maneira com que puxa a água com a língua, o mínimo estardalhaço que faz para pular o portão, a língua que lambe o pelo, o miado de manha, de fome, de aviso de perigo.
Ele, o gatinho mirrado preto, de maneira sofrida mastiga rapidamente a ração dela (dentro da minha cozinha!), desesperadamente engole a água limpa, e foge escorregando pela parede. Ele rouba! Ele rouba, o ladrão de ração.
Dias atrás, meu amor felino estava triste. De uma tristeza sem cura, melancólica. Era por causa dele, o filhodeumaéguaabandonada, que sumiu. Ficou umas duas semanas sumido, enquanto ela desfilou miados e chorou (em meu colo, edredon, sofá, rede e travesseiro) por ele. Mas como todo filhodeumaéguaabandonada faz, ele reapareceu.
Reconheci pelas mastigadas descontroladas. Aquele fedido!
Ao voltar, ela viu que ele estava vivo.
Ao sumir de novo, ela nem ligou!
- Aprendeu, amor meu?
A ração dele deixo lá fora, ao lado da água.
Porque a compaixão faz parte de mim.
Ração barata. Ração de gato-inseto!
Ração barata. Ração de gato-inseto!
Aqui, há quase um ano, em uma esquina, de madrugada.
Eu voltando de uma balada de madalena, arrependida.
Fiz questão de parar e fotografar o maledito.
Eu voltando de uma balada de madalena, arrependida.
Fiz questão de parar e fotografar o maledito.




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