terça-feira, 21 de abril de 2009

Mágoa velada

Depois da vacina, silêncio. Se eu chamo, ela não atende. Se eu me aproximo, ela sai de perto. Ficamos assim por três dias. Da janela vejo, atrás do pneu da bicicleta, a Gata tomando sol e sombra.


Eu fotografo, eu chamo... e nada! Passam as manhãs que não voltam. Lavo tudo, tenho mangueira no quintal. A cesta secando ao sol, expulsando o mofo... ela entra encolhida e dorme, mesmo úmida a madeira. Ignora, faz de conta que não me vê, não me ouve, não sabe de mim. Mágoa.



Depois de três dias assim, ela pula em mim, assim macia, no domingo à noite, Fantástico!, ronrona, pisca pela metade (a piscada romântica dos gatos) e faz as pazes. Em minutos adoeço, febril. Sem sair da cama, sem sair do corpo, alma presa na dor do susto que queima os órgãos, ela percebe a aflição. Fica perto, dorme todos os dias ao meu lado, fareja meu hálito, massageia minhas costas... tentando me tirar da letargia, ou talvez deixar mais confortável o sofrimento.

E então, depois de três dias de febre em mim, em uma das noites de sono impossível, ela exagera em sua preocupação, e em seu olhar vejo espelhado o meu padecimento. Lambe meu cotovelo, encosta as costas nas minhas costas, não incomoda, não faz barulho. A cada virada, sua preocupação aumentava... e a minha também! "Meu Deus, será que ela pressente a minha saída?".

Acordei me arrastando, queimando entranhas sem o auto-controle necessário para uma vida ativa, produtiva e feliz. E mesmo sem margarina, sem pão quentinho ou cafuné humano, sigo para o trabalho disciplinador.

O vento que entra pela porta gigante não comove o colega. "Vamos abrir mais essa porta". Tremo, formigam as mãos, o queixo não controla os dentes. Tictictic de frio dos infernos. "Pai, vem me buscar". Enfim, então, pois não, pedi ajuda. Pronto socorro, que de pronto nada tem.

Soro na veia, sangue na agulha, peito na chapa. Desmaio, nervoso, quase medo. A cura está demorada, a fumaça será para sempre ausente, o pulmão prejudicado agradece, o desejo pela fumaça empobrece. Mel com limão de madrugada, carinho materno nos pés e canelas de pele fina. Quase volto ao início de tudo. Porque o início de tudo foi colo materno e quase morte. Quase morte...

E a Gata? A Gata inconformada por eu ter me internado na casa alheia por dias e dias, me espera chorando na porta. Chora de manhã pedindo atenção. Chora à tarde pedindo comida. Chora implorando minhas mãos.

Conforme lentamente melhoro, lentamente ela vai voltando à sua rotina de rua ao lado de seu amigo negro gato - o ladrão de ração. Falo dele outro dia!



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